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O Homem que Eu Poderia Ter Sido

By Pastor Hal Mayer

Prezado amigo,

Seja bem-vindo ao Ministério Guarde a Fé. Obrigado por unir-se a nós hoje. É um imenso prazer passar esses momentos com você. Espero e oro para que o Senhor abra as janelas do Céu e abençoe a sua vida e a vida de seus familiares. Estamos vivendo nos últimos dias e, mais do que nunca, devemos ancorar nossa fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre.

Obrigado por suas orações e apoio. Eles significam muito para o Ministério Guarde a Fé. Emociono-me ao viajar de lugar em lugar e ver a ajuda que nossos humildes CDs mensageiros representam ao povo de Deus. Muitas pessoas relatam que acompanham mensalmente as nossas mensagens. Sinto-me muito grato a Deus por isso.

Por favor, distribua o nosso CD entre as pessoas que você conhece. Sinta-se à vontade para fazer quantas cópias desejar. Nós nos colocamos à disposição para enviar-lhe vários exemplares para serem distribuídos entre seus contatos. Basta pedir. Você está em nosso coração e em nossas orações.

Hoje quero partilhar com você a autobiografia de um homem, cuja identidade você logo reconhecerá. Essa história triste serve de advertência para todos nós. Contarei essa história na primeira pessoa, como se fosse em suas próprias palavras. Como se essa pessoa estivesse contando a sua experiência de vida do lado de fora dos muros da Nova Jerusalém após a Cidade Santa ter descido do céu, pouco antes da execução do juízo dos ímpios ao final do milênio. Você está em um sonho, que o fez viajar para o futuro até aquele grande momento. Você está em pé ao lado desse personagem fora dos muros. Os ímpios foram ressuscitados a fim de receber sua sentença eterna. Espero que essa história o ajude a perceber o que você deve fazer a fim de garantir o seu lugar dentro da cidade de Deus.

Ouça a seguinte citação encontrada em O Grande Conflito, às páginas 666 e 667: “Na presença dos habitantes da Terra e do Céu, reunidos, é efetuada a coroação final do Filho de Deus. E agora, investido de majestade e poder supremos, o Rei dos reis pronuncia a sentença sobre os rebeldes contra Seu governo, e executa justiça sobre aqueles que transgrediram Sua lei e oprimiram Seu povo. Diz o profeta de Deus: ‘Vi um grande trono branco, e O que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a Terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante do trono, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras’ (Apocalipse 20:11 e 12).”

Note que os ímpios são julgados de acordo com aquilo que eles fazem na carne, de acordo com as suas obras. As suas obras representam uma janela dos “pensamentos e imaginações” de seu coração.

Ouça o trecho seguinte: “Logo que se abrem os livros de registro e o olhar de Jesus incide sobre os ímpios, eles se tornam cônscios de todo pecado cometido. Vêem exatamente onde seus pés se desviaram do caminho da pureza e santidade, precisamente até onde o orgulho e rebelião os levaram na violação da lei de Deus.
As sedutoras tentações que incentivaram na condescendência com o pecado, as bênçãos pervertidas, os mensageiros de Deus desprezados, as advertências rejeitadas, as ondas de misericórdia rebatidas pelo coração obstinado, impenitente – tudo aparece como que escrito com letras de fogo.”

Você consegue imaginar a cena aterrorizante? Ali, diante do Juiz da Terra, os ímpios verão todos os seus pecados em vívidos detalhes. Sem dúvida, eles serão tomados por uma profunda aflição e grande amargura impossíveis de serem removidas ou apaziguadas.

Continuando a leitura: “Por sobre o trono se revela a cruz; e semelhante a uma vista panorâmica aparecem as cenas da tentação e queda de Adão, e os passos sucessivos no grande plano para redimir os homens. O humilde nascimento do
Salvador; Sua infância de simplicidade e obediência; Seu batismo no Jordão; o jejum e tentação no deserto; Seu ministério público, desvendando aos homens as mais preciosas bênçãos do Céu; os dias repletos de atos de amor e misericórdia, Suas noites de oração e vigília na solidão das montanhas; as tramas de inveja, ódio e maldade, com que eram retribuídos os Seus benefícios; a agonia terrível e misteriosa no Getsêmani, sob o peso esmagador dos pecados do mundo inteiro;
Sua traição nas mãos da turba assassina; os tremendos acontecimentos daquela noite de horror – o Prisioneiro que não opunha resistência, abandonado por Seus discípulos mais amados, rudemente empurrado pelas ruas de Jerusalém; o Filho de Deus exultantemente exibido perante Anás, citado ao palácio do sumo sacerdote, ao tribunal de Pilatos, perante o covarde e cruel Herodes, escarnecido, insultado, torturado e condenado à morte – tudo é vividamente esboçado.”

Imagine esse filme celestial. Você ouviu as palavras referentes à traição? O texto se refere a Judas, o personagem de hoje. Como é possível um homem que esteve com Jesus dia e noite por três anos fazer algo terrível assim? Talvez depois de ouvirmos o que ele tem a dizer, possamos compreendê-lo um pouco melhor.

Continuando a leitura: “E agora, perante a multidão agitada, revelam-se as cenas finais – o paciente Sofredor trilhando o caminho do Calvário, o Príncipe do Céu suspenso na cruz; os altivos sacerdotes e a plebe zombeteira a escarnecer de Sua agonia mortal, as trevas sobrenaturais; a Terra a palpitar, as pedras despedaçadas, as sepulturas abertas, assinalando o momento em que o Redentor do mundo rendeu a vida.

“O terrível espetáculo aparece exatamente como foi. Satanás, seus anjos e súditos não têm poder para se desviarem do quadro que é a sua própria obra. Cada ator relembra a parte que desempenhou. Herodes, matando as inocentes crianças de
Belém, a fim de que pudesse destruir o Rei de Israel; a vil Herodias, sobre cuja alma criminosa repousa o sangue de João Batista; o fraco Pilatos, subserviente às circunstâncias; os soldados zombadores; os sacerdotes e príncipes, e a multidão furiosa que clamou: ‘O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!’ – todos contemplam a enormidade de seu crime. Em vão procuram ocultar-se da majestade divina de Seu rosto, mais resplandecente que o Sol, enquanto os remidos lançam suas coroas aos pés do Salvador, exclamando: ‘Ele morreu por mim!’”

Para os ímpios, Jesus morreu em vão. Jesus morreu em vão por você, amigo? Espero que não. Uma das pessoas por quem Ele morreu em vão foi um de seus próprios discípulos. Contarei essa história nas próprias palavras desse personagem, como se você estivesse sonhando e ouvindo-o falar do lado de fora dos muros da Nova Jerusalém.

Antes, porém, convido-o a orar comigo. Nosso amorável Pai, não compreendemos o que faz com que o nosso coração se volte contra o amor de Cristo. Essa é uma tragédia que não queremos que se repita em nossa vida. Ajuda-nos hoje a alcançar o arrependimento verdadeiro e a viver por Jesus. Rogamos que envies o Teu Santo Espírito para nos transformar por meio do Teu constante e eterno amor. Em nome do Senhor Jesus, amém.

Gostaria de lembrá-lo de um verso encontrado em Mateus 27:5. Esse verso descreve o momento logo depois que eu percebi que cometi um erro irreparável. Ouça: “E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar.” Esse verso fala a meu respeito, Judas. Fiquei tão arrasado que perdi a vontade de viver. Depois de trair Jesus, depois de observá-Lo aceitando os maus tratos dos líderes religiosos, soube que estava perdido, que aquele era o meu fim! Quero dizer, antes daquele momento, achei que Ele não permitiria que O maltratassem e O crucificassem. Tinha certeza de que Ele Se libertaria e instituiria o Seu reino terrestre.

Como estava errado! Ao perceber que Ele não faria nada para Se livrar de tudo aquilo, soube que O julgara erroneamente. Vi também a grandiosidade do ódio e da maldade dos líderes da igreja contra Ele. Algo muito semelhante aos líderes religiosos que viveram logo antes do fechamento da porta da graça há mil anos. Eles pensavam realizar a obra de Deus ao perseguir ferozmente aqueles que O seguiam e viviam pela Sua lei, especialmente os guardadores do sétimo dia. Não tive esperança; nenhuma esperança de alcançar o alívio de minha culpa. Não existe agonia maior do que essa. Nenhum sofrimento tão doloroso e incompreensível. Nenhuma experiência tão aterrorizante. Senti-me compelido a acabar com a minha vida. Suicidei-me por causa de meu pecado. Agora, estou diante do juízo final em que os pecadores receberão sua merecida punição. Serei como se nunca houvesse sido. Meu destino eterno está selado. Estou prestes a ser lançado no lago de fogo e não há nada que eu possa fazer a respeito! É tarde demais!

Sempre que as pessoas se lembram de mim, geralmente têm pensamentos negativos. Elas nunca escolhem o meu nome para os seus filhos, como acontece com os outros discípulos. João, Pedro, Tiago e Mateus, por exemplo, são nomes populares, mas não Judas. Um dia o meu nome também foi um bom nome. Se não fosse assim, meu pai não teria escolhido esse nome para mim. Judas, na verdade, quer dizer “louvado seja Deus”, um nome perfeitamente apropriado para qualquer filho de pais tementes ao Senhor, que se regozijam e louvam a Deus por terem um menino.

Um dos filhos de Jacó tinha o mesmo nome que eu. Você se lembra de Judá? Judá é o mesmo que Judas. Um dos irmãos de Jesus também era chamado assim. Ele escreveu o livro de Judas. Até mesmo um grande guerreiro e líder militar tinha esse nome. Você se lembra de Judá Macabeu? Ele foi para os judeus o mesmo que George Washington foi para os Estados Unidos.

Eu também tinha um segundo nome, Escariotes, que significa “filho de Quiriote”, que é o vilarejo em que o profeta Amós nasceu, a oitenta quilômetros ao sul de Jerusalém. Eu fui o único discípulo que não era da Galileia.

Percebe? Eu tive um bom começo. Nasci e fui criado num lar religioso. Aprendi a crer em Deus e a amar o meu país. Mais tarde, senti o desejo de fazer algo a fim de aliviar o sofrimento do meu povo do jugo opressor de Roma. Desde jovem, vi que tinha talento e fiz o propósito de usar minhas habilidades para trazer liberdade ao meu povo. Fui treinado nas melhores escolas. Destaquei-me nas aulas de economia, política, ciências e direito, e aprendi a ler e a escrever.

Além disso, acalentei em meu coração uma grande esperança! Aprendi que quando o Messias viesse, Ele libertaria os judeus da opressão romana. Desde então, meu sonho foi fazer parte disso!

Assim, logo depois que me formei, dediquei a minha vida para ser um escriba. Na época, um escriba era alguém muito culto. Alguém que sabia ler e escrever, o que fazia dele uma pessoa de muito valor aos olhos daqueles que não sabiam essas coisas, especialmente os líderes. Os escribas geralmente ocupavam posições de destaque ao lado dos reis, governadores, militares e até mesmo do sumo sacerdote. Os escribas escreviam cartas, formulavam decretos, gerenciavam as finanças e lidavam com diversos assuntos de ordem pessoal e política de seus superiores.

Ser um escriba era a melhor maneira de conseguir uma posição privilegiada na igreja ou no governo. Os escribas eram bem informados. Eles faziam parte do círculo interno do poder e tinham acesso a todas as informações relacionadas a seu superior, fosse ele um militar, governante ou uma autoridade eclesiástica importante. Os escribas eram os doutores da lei e geralmente eram os intérpretes das Escrituras. Eu conhecia todas as profecias messiânicas e ensinei-as aos outros da mesma forma como aprendi. Cada vez mais, eu avançava na escala hierárquica. Meu trabalho me mantinha próximo aos centros de influência de Jerusalém e de outros lugares ao redor da Judeia.

A posição ocupada pelo escriba lhe concedia uma séria de privilégios especiais. O escriba, por exemplo, sempre sabia com antecedência o que aconteceria na nação e com isso preparava-se para tirar proveito da situação, algo semelhante ao que costumava acontecer no mercado interno, logo antes de Jesus voltar, quando alguém recebia uma informação que ainda não era de domínio público. Mas na minha época, era muito mais fácil fazer isso sem ser pego. A profissão de escriba era uma profissão muito respeitada e geralmente resultava em uma vida muito confortável e um bom salário.

Referência: McClintock and Strong, Cyclopedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature, Harper and Brothers, 1880.

Eu sabia que tinha muito a contribuir e pensei que, talvez, pudesse conseguir uma posição de destaque no governo do Messias. Reconheci que o momento de o Messias chegar estava próximo. Parecia que não tinha como as coisas piorarem na sociedade. Além disso, as profecias de Daniel indicavam que o Messias estava prestes a surgir. Mas não comentei com ninguém a respeito de minhas ambições pessoais.

Certo dia, ouvi falar de um novo rabi em Israel. Ele era dotado de poderes maravilhosos. Ele era capaz de curar os enfermos, fazer o coxo andar e o cego ver. “Talvez”, pensei. “Quem sabe ele seja o Messias, aquele que colocará um fim no terror e na opressão”. Assim, dei início a uma viagem na tentativa de encontrá-Lo e ver se esse novo rabi era Aquele, o Messias prometido.

Observei-O de longe por um tempo. Não queria dar nenhum passo que me associasse com alguém que fosse um mero impostor. Havia muitos impostores naquele tempo que lideravam rebeliões contra os romanos e que, ao serem apanhados, eram exterminados de acordo com as leis romanas. Não podia correr o risco de relacionar-me com alguém sem antes conhecê-lo muito bem, pois tinha talentos que poderiam ajudar o Messias e, por isso, tinha que ter cuidado para não desperdiçá-los.

Ao ouvir Jesus falar, fiquei impressionado. Se, de fato, Ele fosse instituir o reino de que falava, aquele seria um belo lugar para se viver. Nada de guerras. Nada de injustiça, fome, intrigas, morte ou tristeza. Apenas a paz sem fim. Quem não quer viver num lugar assim? Na ocasião, não percebi que Ele falava do reino do coração, e que a única parte desse reino na Terra era o caráter das pessoas que um dia fariam parte dele. Sim, Ele falou a respeito do reino do Pai, uma realidade física, mas não me dei conta de que Ele se referia a um reino espiritual com uma realidade física que não seria e não poderia ser instituída naquele momento. Pensei que Ele usava eufemismos apenas para disfarçar Suas verdadeiras intenções.

Notei também que por causa de Seus poderes sobrenaturais, os romanos não seriam um problema. Nada seria capaz de detê-Lo. Convenci-me de que Ele era, na verdade, o tão esperado Messias.

Quanto mais O observava, mais me sentia atraído à Sua pessoa. Senti a influência de Seu poder divino e sensibilizei-me diante da beleza de Seu caráter. Fui atraído. Senti que precisava dEle. Mas também sabia que não poderia abandonar meu objetivo – tornar-me um de Seus conselheiros mais achegados no novo reino nacional.

Observei os discípulos que Ele escolheu e me perguntei se Ele realmente sabia o que estava fazendo. Ele escolheu o grupo de homens menos promissor para treinar para o Seu reino e fiquei um pouco desapontado por Ele não ter escolhido com mais cautela. Não fazia o menor sentido para mim o fato de Ele escolher humildes pescadores. Eles nunca seriam capazes de ajudá-Lo a fundar o Seu reino. Além disso, foi uma péssima ideia ter no grupo um cobrador de impostos. Isso jamais O ajudaria a ser benquisto pelos líderes da igreja. Os cobradores de impostos eram desprezados. Em minha opinião, Jesus precisava do apoio dos líderes, por isso, Ele deveria contar com alguém capaz de Lhe dar bons conselhos. Por ser um escriba, sabia que eu era a pessoal ideal para exercer essa função. Além disso, mantinha ótimos contatos em Jerusalém. Eu tinha todas as qualificações para fazer com que a missão de Jesus fosse bem-sucedida.

Jesus precisava de alguém como eu – um homem de negócios astuto e com uma boa experiência política e econômica. Ele precisava de alguém bem relacionado, capaz de gerenciar Seus negócios pessoais. Ele precisa também de alguém que entendesse de lei, um advogado apto a cuidar de todos os assuntos de Seu interesse. Jesus precisava de alguém que tivesse sido treinado a pensar com clareza e a ser um bom administrador, se Ele quisesse obter a vitória contra os romanos, ser o Rei dos judeus e restaurar a prosperidade de Israel. A prosperidade era algo muito importante para mim. Sabia que por um tempo teria que fazer alguns sacrifícios. É sempre assim que acontece com os projetos revolucionários.
Mas no final a recompensa valeria a pena. É assim que funciona no mundo político – e eu estava disposto a me sacrificar por um tempo, contanto que garantisse uma posição elevada no novo governo.

Assim, decidi apresentar-me a Jesus. Coloquei minha melhor roupa e dirigi-me respeitosamente a um de Seus discípulos colocando-me à disposição do serviço de seu Mestre. Ao lhe mostrar minhas referências e contar minha história de vida, meu currículo, ele ficou muito entusiasmado e apresentou-me aos outros discípulos. Finalmente, eles me levaram até Jesus e recomendaram que eu fizesse parte do grupo. Eles perceberam que eu tinha habilidades especiais. Eu também tinha a aparência de líder e era capaz de falar com autoridade. Jesus não me deu as boas-vindas, nem me recusou, mas disse algo que me pareceu muito estranho na ocasião. Você pode ler o que Ele disse em Mateus 8:19-20:

“E, aproximando-se dEle um escriba, disse-lhe: Mestre, aonde quer que fores, eu Te seguirei. E disse Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.”

Fiquei um pouco incomodado com essas palavras, mas estava otimista e senti que Jesus apenas não sabia muito bem o que fazer a fim de melhorar a Sua situação.
Como causei uma boa impressão nos discípulos, achei que poderia trabalhar com eles. Na verdade, eles tinham grande consideração por mim e criam que eu traria prestígio ao grupo. Eles achavam que eu era um excelente conselheiro e me procuravam para saber meu parecer sobre diversos assuntos. Afinal, eu tinha um discernimento apurado, pelo menos no que dizia respeito às questões judaicas.

Conviver com Jesus, porém, não foi o que eu esperava. Quando Ele falava conosco era como se Ele pudesse ler o meu coração, e muito do que Ele dizia batia de frente com os meus princípios e planos. Eu sabia que era melhor do que os outros discípulos. Sabia que eles valorizavam os meus dons e talentos, mas Jesus nunca os reconheceu ou os aprovou. Os discípulos precisam de mim. Pedro era tão impetuoso. Ele agia sem pensar. Eu sempre pensava muito bem antes de agir. João era péssimo em economia e finanças. Mateus era honesto e reservado demais, além disso, estava sempre meditativo nos ensinos de Jesus para que pudesse cuidar dos negócios com afinco. A mesma coisa acontecia com os outros discípulos.
Eu era o único com as qualificações necessárias de um líder eficaz. Portanto, segundo pensava, assim que o novo reino nacional fosse estabelecido, eu seria a única opção de Jesus para ocupar o cargo de primeiro-ministro, ministro das relações exteriores ou alguma outra posição importante. Seria honrado por meus esforços.

Convivi com Jesus por um bom tempo. Ouvi Seus sermões e as lições que Ele ensinou aos outros. Mas de alguma forma, Ele sempre fazia aplicações que me deixavam incomodado. Era como se Jesus tentasse sugerir que meus esforços e sacrifícios não seriam recompensados. Os ensinos de Jesus ressaltavam coisas em minha vida que estavam em conflito com as Suas ideias.

Sai na companhia dos discípulos e preguei. Jesus concedeu-me o Espírito Santo para que eu também fosse capaz de curar os enfermos. Foi incrível! Imagine ser capaz de fazer milagres como Jesus! Na presença de Jesus sempre me sentia animado a fazer o que era correto, mas algo dentro de mim não me deixava esquecer o motivo pelo qual estava ali. Minha missão era ajudar Jesus a estabelecer o Seu reino terrestre.

Como eu era bom em finanças, fiquei responsável pelo dinheiro a fim de administrar o pequeno recurso que nos era ofertado pelos amigos. Mesmo contra a minha vontade, sempre recebia instruções para partilhar nossos recursos limitados com os pobres. Parecia que nós nunca tínhamos o suficiente e sempre me incomodou o fato de não receber salário. O que tínhamos era comum a todos.
Achava que merecia receber pelo menos algum dinheiro em troca de meus esforços. Afinal, eu era de grande valor ao grupo. Assim, comecei a usar parte do dinheiro para suprir as minhas necessidades pessoais e encarei isso como uma espécie de pagamento pelos meus serviços, pois o próprio Jesus disse: “Digno é o obreiro de seu salário” (Lucas 10:7).

Eu era um homem que tinha um câncer espiritual em desenvolvimento dentro de mim. Permita-me ilustrar. Antes do apocalipse, existiram criaturas chamadas borboletas. As borboletas eram lindas criaturas de asas que antes eram simples lagartas. Nem todas as lagartas se tornavam borboletas. Os cientistas diziam que existia certo tipo de mosca que depositava um ovo sob a pele da lagarta. Após a eclosão do ovo, a larva se alimentava da borboleta em desenvolvimento. A lagarta não sentia dor e prosseguia com a vida de lagarta com a larva que a devorava por dentro. As asas nunca apareciam. A larva destruía por completo a capacidade da lagarta de avançar, e a bela criatura de asas que ela poderia ser nunca chegava a existir.

O meu problema era que eu tinha uma larva dentro de mim que me impedia de ser o homem que eu poderia ter sido. O foi que me impediu de ser o que poderia ter sido?

Vou lhe contar. Foi a ambição mundana. Envolvi-me completamente com o patriotismo, o poder e a liberdade. Fui um ardente entusiasta da independência judaica. Ao observar Jesus pela primeira vez, vi um homem que não tinha medo. Ele possuía as qualidades de um bom líder. Ele era a realização de meus sonhos e estava pronto para segui-Lo rumo à vitória. Estava pronto para lutar ao Seu lado. Almejava estar no topo de Seu novo governo. Imagine Jesus, o futuro Rei de Israel! Fiquei radiante! Sonhava em ser o Seu mais fiel e íntimo conselheiro. Eu cuidaria das finanças e garantiria de que nada atrapalhasse o Seu caminho.
Certo dia, Jesus revelou em segredo aos discípulos que Ele era de fato o Messias. Veja o que está escrito em Mateus 16:15-17 e 20:

Jesus lançou uma pergunta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus… Então mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que Ele era Jesus o Cristo.”

Bem, nunca duvidei de que Ele fosse o Messias, mas Jesus não fazia muitas declarações públicas sobre esse assunto, apesar de fazer coisas que apenas o Messias era capaz de fazer. Mas toda vez que eu sugeria que tinha chegado a hora de estabelecer o reino nacional temporal, Ele mudava de assunto. Isso me chateava. Eu queria seguir em frente e Jesus parecia desperdiçar cada oportunidade.

Na ocasião em que me uni a Cristo, não sabia que teria que abrir mão da estimada esperança de um reino terrestre. Para Jesus, ser o Messias significava uma coisa, mas para nós, discípulos, significava outra. Para Jesus, ser o Messias significava enfrentar a cruz. Para nós, significava espada e uma coroa terrestre. Finalmente, os outros passaram a partilhar do mesmo ponto de vista de Jesus, mas não eu. Se o reino de Jesus não incluía glória, poder, riquezas e honra, a Sua causa não era para mim! Mesmo assim, continuei acalentando a esperança de que Ele estava apenas demonstrando Sua humildade. Não dei ouvidos às Suas palavras: “O Meu reino não é deste mundo” (João 18:36). Ignorei-as por causa de minhas ideias preconcebidas. Continuei esperando, quase até o fim, que tudo sairia de acordo com as interpretações da profecia por tanto tempo ensinadas entre o nosso povo.
Não podia imaginar outra alternativa. Afinal, Deus não havia prometido que o Messias restauraria o reino com poder e grande glória? Mal sabia eu que aquilo não se referia ao presente, mas ao futuro, ao reino celestial, à Nova Terra e à Nova Jerusalém que você vê logo ali.

Tudo parecia dar errado. Veja o caso de João Batista, por exemplo. Eu tinha tudo esquematizado. Assim que Jesus se autoproclamasse rei, Ele certamente libertaria João da prisão, pois João sempre foi fiel. Foi ele que batizou o próprio Jesus.
Mas em vez disso, João foi decapitado. Que tragédia! Jesus perdeu a grande oportunidade de demonstrar o Seu poder. Ele permitiu que João definhasse na prisão. Até mesmo João se sentiu desanimado e enviou os seus discípulos para perguntar se Jesus era o Messias prometido ou se deveria esperar outro.
Eu almejava a guerra. Ao observar a crescente inimizade dos líderes judeus e a constante exigência por parte deles por um sinal, perguntei-me por que Jesus não Se interessava em obter nenhuma vantagem temporal. Por que Ele predizia provações e perseguições? Por que insistia na humildade quando podia ser rei? A verdade é que, pessoalmente, nunca cheguei à conclusão de que Jesus fosse de fato o Filho de Deus. Continuava apenas observando.

Vários acontecimentos levaram-me a questionar se algum dia Jesus assumiria o Seu messiado. Você se recorda da ocasião em que Ele alimentou cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças? Que Rei Ele teria sido! A multidão inteira estava convicta de que Ele era o Messias. Durante todo o dia essa convicção apenas se fortaleceu. Jesus era capaz de suprir cada necessidade. A escassez de alimento não seria um problema. Todos concluíram: “É este Aquele que há de tornar a Judeia um paraíso terrestre, uma terra que mana leite e mel. Pode satisfazer todo desejo. Pode derribar o poder dos odiados romanos. Pode libertar
Judá e Jerusalém. Pode curar os soldados feridos na batalha. Abastecer exércitos inteiros de alimento. Conquistar as nações, e dar a Israel o domínio longamente ambicionado” (O Desejado de Todas as Nações, p. 377).

O povo estava eufórico e queria coroá-Lo naquele mesmo instante. Fui eu que os incentivei a fazer isso. Eu acalentava a ideia de que Cristo reinaria em Jerusalém. Cheguei até mesmo a ajudar os outros discípulos a distribuir o alimento. Ajudei-os a trazer os enfermos até Jesus e testemunhei seu alívio e alegria. Senti a satisfação que sempre acompanha a obra de Cristo. Poderia ter compreendido a missão de Cristo, mas insistia em apegar-me às minhas próprias ideias. Nutri desejos egoístas. Assim, dei início ao movimento de pegá-Lo à força e coroá-Lo rei. Tinha grandes expectativas, mas terrível foi a minha decepção no momento em que Cristo ordenou que fôssemos embora e dispersou a multidão bem na hora de O pegarmos.

O momento decisivo, no entanto, foi o discurso de Cristo na sinagoga a respeito do pão da vida. Você pode lê-lo em João 6:53. Ao ouvir as palavras: “Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos”, entendi pela primeira vez que Cristo oferecia virtudes espirituais em vez de riquezas temporais. Olhei para o futuro e percebi que Jesus jamais seria honrado e que não poderia oferecer posições de prestígio aos Seus seguidores. Decidi não me associar de forma tão íntima com Cristo, mas me afastar. Decidi observar de longe, na esperança secreta de que Ele fosse o verdadeiro Filho de Davi, um líder como Davi foi em Israel (ver O Desejado de Todas as Nações, p. 719).

Passei a expressar dúvidas aos outros discípulos que acabaram deixando-os confusos. Introduzi sentimentos de discórdia e engano, repetindo os argumentos dos escribas e dos fariseus contra as alegações de Cristo. Encarei as dificuldades e os obstáculos à nossa frente de forma exagerada e fiz com que parecessem uma evidência contra a veracidade do evangelho. Tentei fazer com que todas as minhas palavras transparecessem preocupação e empenho em trabalhar pelos interesses de Jesus e de Sua missão. Continuamente levava o grupo a desconfiar de Jesus sem que eles percebessem. Ao desconfiarem de Jesus, eles passaram a desconfiar uns dos outros também (ver O Desejado de Todas as Nações, p. 719).

Consegui fazer com que eles discutissem entre si quem seria o maior no novo reino. Fui eu que os encorajei a almejar um tratamento especial.
Na ocasião em que Jesus revelou ao jovem rico as condições do discipulado, fiquei muito descontente. Ali estava um grande equívoco. Jesus deveria ter reconhecido a grande utilidade que aquele jovem representava à causa. Eu pensava ser mais sábio do que Cristo e que toda aquela abnegação não levaria a lugar algum. Sempre discordava de alguma coisa a respeito do que Jesus ensinava.

Minhas esperanças foram grandemente revigoradas na entrada triunfal de Cristo em Jerusalém. Ainda posso ouvir as crianças gritando: “Hosana.” Ainda posso ver os ramos de palmeira sendo agitados em suas mãos. Fiquei ainda mais animado quando Jesus tomou a iniciativa de purificar o templo sem precisar da ajuda de ninguém. Os mercadores fugiram aterrorizados. Agora, sim, as coisas estavam começando a melhorar. Era como se Jesus estivesse assumindo Sua autoridade. Ali estava o Messias que eu tanto queria; Aquele que reinaria com mão de ferro. Mas Jesus não prosseguiu agindo assim. Ele deixou escapar a oportunidade.

Logo em seguida, ocorreu a festa na casa de Simão, o leproso. Aquela foi a “gota d’água”. Estávamos todos sentados à mesa quando aquela mulher apareceu.
Você pode ler essa história em Marcos 14:3: “E, estando Ele em Betânia, assentado à mesa, em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher, que trazia um vaso de alabastro, com unguento de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso, lho derramou sobre a cabeça.”

O ritual da unção era algo muito significativo para os reis da época do Antigo Testamento. Esse gesto sublime e dispendioso indicava o futuro rei da nação. “Será que esse gesto indica um passo em direção ao estabelecimento do reino temporal de Cristo?”, pensei. Mal sabia eu que aquela mulher estava ungindo Jesus como o rei de Seu coração.

Senti-me envergonhado com o gesto daquela mulher. Aquilo foi tão dispendioso, tão extravagante. Eu jamais teria feito uma coisa assim. Convenci-me ainda mais de meu orgulho. Aquela mulher respeitava Cristo e O amava muito mais do que eu. Fiquei muito incomodado e descontente. Minha avareza veio à tona. Precisava de alguns shekels a mais para o meu uso pessoal.

Fui obrigado a disfarçar os meus sentimentos, por isso, cochichei com os discípulos ao meu lado: “Para que se fez este desperdício de unguento? Porque podia vender-se por mais de trezentos dinheiros, e dá-lo aos pobres” (versos 4 e 5). Queria que os outros pensassem que Jesus havia cometido um erro ao consentir com a atitude daquela mulher.

Mas logo em seguida, Jesus fez um comentário que baniu minhas esperanças e todas as minhas fantasias quanto ao futuro: “Deixai-a, por que a molestais? Ela fez-me boa obra. Porque sempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a Mim nem sempre Me tendes. Esta fez o que podia; antecipou-se a ungir o Meu corpo para a sepultura” (versos 6-8).

Fiquei chocado com a resposta de Jesus. Imaginei que aquele ato apontava para a coroa, não para a cruz! Bem, agora sei que aquele gesto apontava para a coroa, mas uma cora de espinhos. A cora de ouro que Jesus usa agora não é uma coroa terrena. Se você olhar com atenção, conseguirá ver aquela mulher logo ali, ajoelhada os pés de Cristo.

As palavras de Jesus me deixaram irritado. Fui exposto, desmascarado. Meu coração, totalmente destituído do amor genuíno, fez com que sentisse raiva de Cristo. Parecia que Ele podia ler os meus pensamentos. Pela primeira vez, Jesus me repreendeu diretamente. Minha hipocrisia ficou evidente. Mesmo assim, como esquecer o olhar de Cristo, aquele olhar de amor e de anseio por conquistar meu coração?

Mas as coisas não mudavam. Jesus sempre rejeitava a glória terrena e reprovava aqueles que se opunham. Aquela noite, na casa de Simão, foi a “gota d’água”! Fiquei farto de tudo aquilo. Para mim, o jogo tinha acabado. Senti que estava desperdiçando o meu tempo. Não havia mais esperança de um reino nacional, de uma boa posição no novo governo ou de uma recompensa por todo o meu sacrifício. Não suportava mais ficar ali com aquele bando de tolos. Eles estavam fadados à falência. Não valia a pena passar por tudo aquilo. Decidi que não seguiria nem um minuto a mais com aquela farsa. Fiquei furioso e senti o desejo de me vingar de Cristo pelo que Ele tinha dito.

Foi, então, que tive uma ideia. Jesus nunca atendeu ao pedido dos fariseus por um sinal. Ali estava a minha chance. Eu O forçaria a provar a Sua divindade e a fazer uma escolha. Ele seria obrigado a fazer um milagre a fim de Se salvar. Com isso, todo mundo saberia que Ele era o Cristo.

Raciocinei que se Jesus tivesse que ser crucificado, aquilo aconteceria de qualquer forma. O fato de eu O entregar aos sacerdotes, não mudaria o resultado. Se Jesus não tivesse que morrer, meus planos apenas O forçariam a Se libertar. Além do mais, esse plano também me renderia um dinheirinho. Tudo acabaria bem. O fim justifica os meios.

Não podia imaginar que Cristo permitiria que O prendessem. Ao traí-Lo, tinha como objetivo ensiná-Lo uma lição. Minha intenção era ensinar Cristo a ser mais cuidadoso no futuro e a tratar-me com respeito. Mas eu não sabia que estava entregando Jesus para ser morto.

Em meu coração, sabia que Jesus tinha poder para Se libertar. Ele já tinha feito isso muitas vezes antes. Em Nazaré, após ler e aplicar o texto das Escrituras a Si próprio, o povo estava prestes a atirá-lo do penhasco, mas Jesus simplesmente desapareceu. Em outras ocasiões, a verdade ensinada por Jesus incomodou tanto os líderes judeus, que eles pegaram pedras para apedrejá-Lo, mas Ele sempre conseguiu escapar. Ele sempre escapava das armadilhas mortais dos homens ímpios. Por que seria diferente desta vez?

Assim, decidi arriscar. Se Jesus realmente fosse o Messias, o povo, que foi tão beneficiado por Ele, certamente o defenderia e O proclamaria rei. Isso convenceria todos que ainda estivessem confusos a respeito de Sua verdadeira identidade. Eu levaria o crédito por colocá-Lo no trono de Davi e, naturalmente, assumiria uma posição de prestígio ao lado de Cristo no novo reino. Eu tinha tudo planejado. Jamais podia imaginar que estava prestes a selar meu destino eterno (ver O Desejado de Todas as Nações, p. 721).

Fui falar direto com o sumo sacerdote. Admirei-me em encontrar o conselho reunido. Fiquei mais surpreso ainda ao descobrir que estavam discutindo a respeito de Jesus. Ofereci-me para ajudá-los a encontrar Jesus à noite e a prendê-lo em segredo. Combinamos que eu os conduziria até o local em que Ele costumava ir e onde estaria descansando e orando na companhia dos outros discípulos.

Eu era tão egoísta e ganancioso que negociei minha ajuda em troca de dinheiro. No final, ficou combinado que eu receberia trinta moedas de prata pela informação, o valor de um escravo. José foi vendido por vinte moedas de prata por meu xará, Judá. Esse era o valor de um escravo naquele tempo. Agora estava fazendo o mesmo com Jesus. Com a graça de Deus, José foi o salvador de sua família e do mundo inteiro da época. Suponho que ele tenha sido um tipo de Cristo. Agora, eu estava cumprindo o ato profético de Judá muitos séculos antes. A única diferença é que Judá se arrependeu e no final se reconciliou com José. Eu poderia ter feito isso também. Se tivesse feito isso, estaria dentro dos muros da cidade hoje. Mas não fui capaz de humilhar-me e de confessar a minha ganância e o meu egoísmo.

Existe um ditado antigo que diz: “Doce é a vingança.” Não creia nisso. Eu me vinguei e não foi nada doce. Escolhi o beijo fraternal como o sinal para os inimigos de Cristo. Aparentemente, o beijo era o sinal de minha amizade e amor por Jesus, mas na realidade, foi o sinal de minha traição. A vingança não foi nada doce. No momento em que Ele me disse: “Judas, com um beijo trais o Filho do homem?”, pude sentir o peso da culpa.

Mesmo em meio às trevas da noite, senti uma terrível amargura em minha alma no momento em que Ele olhou para mim. O ato de nutrir sentimentos de ressentimento, vingança ou ódio nunca satisfará a alma. Apenas o perdão traz felicidade e paz. Eu não aprendi essa lição. Meu egoísmo alimentou o espírito de ressentimento em meu ser. Não fui capaz de perdoar. Não fui capaz de buscar ajuda do alto para a libertação de meu egoísmo. Agora estou destinado à morte eterna. Nutri sentimentos de revolta contra Cristo. Não há nada que Ele possa fazer por mim agora. É tarde demais. Nunca gozarei da verdadeira paz. É por isso que vou sofrer a segunda morte em vez de estar com Cristo na Nova Jerusalém. Um espírito vingativo e rancoroso leva à morte eterna. Sei disso por experiência própria.

Não há nada a ganhar com a vingança, a não ser uma consciência vazia e ferida. O perdão é a única maneira de encontrar paz e felicidade. Infelizmente, aprendi essa lição tarde demais. A vingança ou a revanche são frutos da ambição, pois mais cedo ou mais tarde alguém ou alguma coisa atrapalhará o caminho da ambição e fará com que você fique ressentido ou com raiva.

Os outros discípulos também possuíam ambições mundanas. Talvez você se lembre de João. Ele queria sentar-se à destra de Cristo no novo reino nacional. Você sabe quem incentivou João e a mãe dele a pedirem isso para Jesus? Fui eu. Eu incentivei a desunião entre os discípulos. Mas João, mais tarde, aprendeu a submeter-se à vontade de Deus. Cristo tornou-Se o seu Mestre, algo que eu não fui capaz de fazer. Eu pensei que sabia mais do que o próprio Jesus. Olhe para mim agora. Aqui estou eu, prestes a ser destruído para sempre. Ainda não há arrependimento em meu coração. É por isso que estou perdido. É por isso que a minha vida deixará de existir em breve.

Eu poderia ter sido como João. Vivemos na mesma época. Caminhamos sob o mesmo céu. Enfrentamos as mesmas tentações. Convivemos por três anos com a mesma personalidade radiante. Ouvimos juntos as Suas parábolas e histórias. Tivemos o privilégio de ouvir os Seus ensinos e de testemunhar os milagres que Ele operou. Fizemos parte do mesmo discipulado. Eu poderia ter sido como João, se tivesse submetido minhas esperanças mundanas assim como ele fez. Nunca aceitei Jesus como o meu Salvador e Mestre. Nunca permiti que meu coração fosse moldado por Seus ensinos e exemplo.

Recordo-me muito bem de seu apelo: “Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-Me” (Mateus 16:24).

Poderia ter sido também como Simão Pedro. Mesmo tendo negado Jesus proferindo maldições e palavras baixas, seu pecado não foi imperdoável, pois ele se arrependeu. Ele pecou contra a Pessoa mais maravilhosa que já existiu. Isso tornou seu caso sem esperança? Pelo contrário! Jesus ofereceu-lhe o perdão sem limites.
Eu mesmo presenciei o dia em que Jesus perdoou uma adúltera. “Nem Eu também te condeno”, disse Ele, “vai-te, e não peques mais” (João 8:11).

Ele perdoou o ladrão na cruz e prometeu-lhe a vida eterna. “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43).

Se eu tivesse me arrependido, Ele teria me perdoado também! Foi exatamente isso que Ele tentou deixar claro naquela noite ao dizer: “Judas, com um beijo trais o
Filho do homem?” Naquele momento, Ele viu o pior de meu ser e mesmo assim me amou e falou comigo com compaixão.

Por que não me arrependi? Talvez pela mesma razão que muitas pessoas não se arrependeram. Para arrepender-se é preciso humilhar-se. É preciso uma mudança de coração. Você precisa estar disposto a mudar de atitude e seguir resoluto na direção contrária. É a coisa mais difícil que um homem ou uma mulher tem que fazer. Isso é tão difícil que eu me recusei a passar por isso. No entanto, é a única maneira de encontrar a paz. É mais do que sentir repugnância de si mesmo. É almejar por Cristo, por Seu amor e por Sua graça perdoadora, que é capaz de mudar o coração. Eu não permiti que isso acontecesse em meu coração. O arrependimento verdadeiro é muito mais do que uma consciência ferida e temerosa das consequências. É mais do que a confissão. Eu posso confessar hoje o que eu fiz, mas ainda assim não ter me arrependido. O arrependimento é a submissão do coração a Cristo. É a decisão de obedecê-Lo em todos os aspectos. É Jesus que nos concede o arrependimento. Em Atos 5:31, diz: “Deus com a Sua destra O elevou a
Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados.”

Como posso descrever a cena? Ali estava eu, crente que Cristo Se libertaria. Mas vi que Ele permitiu que O prendessem. Apreensivamente, segui-O até o julgamento perante os líderes judeus. Ansiosamente, esperei que Ele manifestasse Seu poder divino. Mas Ele não Se manifestou. Observei com espanto as horas passarem enquanto Ele Se submetia a cada abuso, a cada zombaria, a cada tapa em Seu rosto, a cada cruel ameaça. Esperei ansiosamente que Ele surpreendesse a todos e
Se revelasse como o Filho de Deus com poder e glória e frustrasse todos os planos malignos de Seus acusadores (ver o Desejado de Todas as Nações, p. 721).

De repente, fui tomado por um terrível pavor. “O que eu fiz?”, pensei comigo. Ele não merece passar por isso! Eles vão matá-Lo! E Ele vai permitir. Naquele momento, deparei-me com a terrível verdade. Mas já era tarde demais. De repente me dei conta de que era um traidor. Enquanto Seus inimigos O torturavam, eu era torturado por minha consciência culpada. Não pude mais suportar aquilo.

De repente, minha voz rouca rompeu em profunda agonia, aterrorizando a multidão ali presente. “Ele é inocente. Poupe-O, por favor, Caifás”. Meu testemunho, porém, não fez a menor diferença. Estava falando com meus comparsas de crime. Eles não eram capazes de me confortar. Eles estavam envolvidos na mesma conspiração contra Cristo que eu. Meu clamor foi em direção a Terra, não em direção ao Céu.

A multidão se afastou e eu me aproximei dos líderes com o dinheiro sujo que o meu coração ganancioso conquistou e atirei-o aos pés do sumo sacerdote. Cai de joelhos aos pés de Caifás e agarrei o seu manto, implorando para que libertasse Jesus. “Ele não fez nada de errado”, gritei. Mas Caifás simplesmente me afastou de perto dele, sem saber o que responder. Eu O havia exposto. Todos agora sabiam que ele tinha me subornado para trair o Mestre.

“Pequei”, clamei chorando em voz alta, esperando por alguma palavra de conforto, “traindo sangue inocente”. Mas Caifás, recompondo-se, respondeu em escárnio: “Que nos importa? Isso é contigo” (Mateus 27:4). Ele estava disposto a me usar, mas não estava disposto a me restaurar. Fui desprezado por minha vileza.
Virei, caí de joelhos aos pés de Jesus e implorei para que Se libertasse. “Por favor, Jesus, não permitas que eles façam isso contigo! Tu tens poder. Liberta-te”, roguei. “Tu és o Filho de Deus. Não permitas que isso aconteça.” Minha angústia era tão grande que grossas gotas de suor escorriam pela minha face e se misturavam com as lágrimas.

Oh, como gostaria de ter me arrependido, mas agora é tarde demais. Oh, como gostaria de ter permitido que Deus preenchesse o meu coração com o arrependimento verdadeiro por ter traído o Filho imaculado de Deus. Oh, como gostaria de ter implorado por um novo coração, pela purificação, renovação e conversão de meu ser. Mas eu era orgulhoso. Era arrogante e cheio de ganância e egoísmo. Agora não sou capaz de me humilhar, mesmo que quisesse. Minha confissão foi forçada pela consciência culpada, pelo terrível senso de condenação e do futuro juízo, assim como os milhares de indivíduos que estão aqui hoje ao redor da bela cidade que desceu do céu. Eles confessam que Cristo é Senhor, mas não há arrependimento. Neste exato momento, estão tramando tomar a cidade à força, se puderem.

Ali, aos pés de Cristo, com toda a corte olhando para mim, percebi que estava tudo acabado. Não havia esperança para mim, não havia esperança de Jesus escapar de Seus inimigos. Vi que meus esforços foram em vão. Sai desesperado, gritando em agonia: “Tarde demais, tarde demais.”

Tenho certeza de que a cena convenceu muitos dos presentes de que eles estavam fazendo algo terrível. Mas eles estavam tão determinados a atingir seus cruéis desígnios que rapidamente rejeitaram a convicção do Espírito e prosseguiram com o plano de condenar Jesus.

Corri em meio à escuridão da noite, cegado pela culpa e angústia. A certa altura do caminho, não sei onde, encontrei uma corda velha e gasta. Meu desejo era por um fim em tudo aquilo, enforcar-me. Fora da cidade, encontrei uma árvore. Não me dei conta de que era uma árvore morta, um símbolo bem apropriado de minha alma.
Subi na árvore. Amarrei a corda em um dos galhos mais altos e, em seguida, ao redor do meu pescoço. Pulei da árvore e ali foi o meu fim. Não me lembro de mais nada. Fiquei sabendo que algumas horas mais tarde, o peso do meu corpo fez com que a corda se rompesse e meu corpo sem vida caiu ao chão, machucado pelos galhos que estavam no caminho. Pela manhã, os cães se alimentaram de minha carne. Foi uma cena terrível, mas simbólica.

Como gostaria hoje de ter ido ao palácio de Pilatos e implorado por misericórdia; ou até o palácio de Herodes, onde Jesus foi maltratado, e intercedido por Seu caso.
Como gostaria de ter implorado que aquela terrível coroa de espinhos não tivesse sido colocada sobre a Sua cabeça.

Acima de tudo, gostaria de ter implorado a Jesus por perdão! Sei que Ele teria me perdoado. Oh, como gostaria de ter ido até o pé da cruz e implorado por ajuda. Sei que Ele teria me dado ouvidos.

Em vez disso, meu corpo mutilado e ensanguentado estava caído ao chão ao longo da estrada em que Jesus passaria no dia seguinte, ao pé de uma árvore seca.

Paguei o preço da vingança com uma corda velha e gasta e um corpo mutilado. Jesus pagou o preço da vingança de Deus contra o pecador com um coração partido, torturado, mutilado, espancado e pendurado numa cruz para que os pecadores arrependidos fossem libertos da culpa que eu ainda carrego hoje.

Eu poderia caminhar nas ruas da cidade, que você vê logo ali, ao lado de Pedro, dos outros discípulos e de Jesus. Mas é tarde demais. Não há diferença alguma entre o meu pecado e o pecado de Pedro. A diferença está no que fizemos depois.
A diferença está no íntimo de nosso coração.

Tanto Pedro quanto eu chegamos a uma encruzilhada. Pedro pegou a estrada certa, arrependeu-se, recebeu o perdão e tornou-se uma testemunha poderosa de seu Senhor. Eu peguei a estrada errada e recusei o arrependimento verdadeiro. Essa estrada me conduziu à árvore seca em que eu me enforquei em minha angústia. Hoje estou aqui, prestes a receber minha punição final.

Meu nome, que já significou “louvado seja Deus”, passou a simbolizar ao longo dos séculos uma advertência de Deus àqueles que rejeitaram o arrependimento verdadeiro. Minha vida, de certa forma, foi um apelo aos pecadores obstinados. Jesus usou a minha experiência para ajudá-los a enxergar seu próprio destino, caso continuassem a recusar o arrependimento verdadeiro.

Meu ex-colega, o apóstolo João, escreveu o seguinte em 1 João 2:16-17: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.”
Essa é a única maneira de viver eternamente. João é um homem que eu poderia ter sido.

Marcos, outro ex-colega, escreveu: “Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo [ou apenas trinta moedas de prata] e perder a sua alma?” (Marcos 8:36). Marcos está ali na cidade. Ele é um homem que eu poderia ter sido.

Minha vida foi uma advertência a todos contra o vazio amargo da ganância, do egoísmo e do ressentimento. Foi também uma advertência contra a falta de arrependimento. Esses pecados não arruínam você. Eles não me arruinaram. O que me arruinou e arruinará você é o fato de não buscar o perdão. A falta de arrependimento é o que me levou à perdição eterna. A falta de arrependimento é o que leva qualquer um ao lago de fogo. Esse é o único pecado que afasta o Espírito Santo de nossa vida. É o único pecado imperdoável.

Você está em um sonho. Quando acordar, você se lembrará dele. O que aconteceu comigo, pode acontecer com você. Se você hesitar em aceitar o convite para o arrependimento como eu fiz, se você não der atenção à voz mansa e suave, se você agir como se soubesse mais do que Deus, você acabará como eu. Mas se você se arrepender e buscar o gracioso perdão de Deus, você será o homem que eu poderia ter sido.

O filho pródigo agiu certo. Ele disse: “Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti” (Lucas 15:18). Você pode agir assim também. Não importa quanto tempo ainda reste, meu amigo, você ainda tem chance de se reconciliar com o Pai, por meio de Jesus Cristo. Se você deseja estar na bela cidade, você ainda tem chance de fazer de Cristo o seu Mestre e ser o homem que eu poderia ter sido. Não perca tempo.

Oremos. Nosso Pai celestial, nós queremos ser perdoados de nossos pecados. Almejamos o arrependimento verdadeiro. Fala conosco por meio da voz mansa e suave que nos convida a abandonar os nossos pecados. Ajuda-nos a não rejeitar essa voz. Ajuda-nos a não ter medo de ir a Jesus como estamos. Ajuda-nos a entender o Teu amor e o Teu poder para perdoar até mesmo o pior pecador, se houver arrependimento. Oh, Santo Deus, tem misericórdia de nós. A vida de Judas é uma terrível advertência à última geração desta Terra. Aqui estamos nós. Jesus está prestes a voltar. No entanto, ainda hesitamos em nos render completamente a Cristo. Pai, nós nos arrependemos e confessamos o nosso pecado. Em nome de Jesus e por meio de Seu sangue, rogamos o Teu perdão. Perdoa-nos, imploramos, no nome todo-poderoso de Jesus Cristo, amém.